Nos dias 17 e 18 de março de 2026, foi realizada uma visita de campo à Comunidade Monte Alegre, quilombo localizado no município de São Luís Gonzaga (MA), como parte de uma ação do Laboratório de Antropização (LANTRO), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Antrópicos na Amazônia (PPGEAA/UFPA). A atividade teve como objetivo a coleta de amostras de solo para análises físico-químicas posteriores, integrando uma pesquisa de doutorado que busca avaliar a qualidade do solo e compreender os efeitos do manejo agrícola tradicional praticado na comunidade.

A coleta foi conduzida em duas áreas distintas: uma área de plantio e uma área de preservação, adotada como referência ecológica. Essa abordagem comparativa permite identificar alterações nos atributos do solo decorrentes do uso agrícola. As amostras foram coletadas em diferentes profundidades (0–5 cm, 5–10 cm e 10–20 cm), possibilitando a análise das variações ao longo do perfil do solo e uma compreensão mais precisa de sua dinâmica.

O sistema de manejo observado na área de plantio baseia-se na roçagem da vegetação, manutenção da palhada sobre o solo e cultivo em ciclos contínuos de plantio e colheita. Trata-se de um modelo associado à agricultura familiar, fortemente fundamentado em conhecimentos tradicionais. A análise busca verificar em que medida esse manejo contribui para a conservação ou alteração da qualidade do solo ao longo do tempo.

A atividade contou com a participação do professor André Luiz, do doutorando Claudio Sousa Figueredo e do professor José Guilherme, que também realizaram reuniões com lideranças locais para compreender o modo de vida da comunidade e as práticas produtivas adotadas. Estiveram presentes o presidente da associação, Cleudivan, o vice-presidente Raimundo (Dadindo), além de Cleudimar e Ribamar, lideranças vinculadas à trajetória de Dona Dije (Maria de Jesus), referência no movimento das quebradeiras de coco e na luta quilombola no Maranhão.

Durante as discussões, foram evidenciados desafios que impactam diretamente o uso do solo e a organização produtiva da comunidade. Desde 2013, a localidade enfrenta conflitos internos relacionados à identidade territorial, com parte dos moradores se reconhecendo como quilombola e outra como assentada. Essa divergência tem influenciado o modo de produção, especialmente com a redução de áreas destinadas à agricultura e o avanço da criação de gado.

Apesar dessas limitações, a comunidade apresenta significativo potencial produtivo, ainda pouco explorado em função da ausência de assistência técnica e da baixa inserção em políticas públicas. Observou-se, por exemplo, a não participação no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), mesmo sendo uma comunidade tradicional produtora de alimentos.

Segundo o professor André Luiz, o estudo se fundamenta nos princípios da Etnoecologia e da Etnopedologia. A Etnoecologia busca compreender as relações entre os saberes tradicionais e o meio ambiente, enquanto a Etnopedologia analisa especificamente o manejo do solo a partir desses conhecimentos. Nesse contexto, o solo é compreendido como um indicador central das interações entre práticas produtivas, conservação ambiental e dinâmica social.

 

Os resultados das análises laboratoriais permitirão avaliar as diferenças entre as áreas estudadas, identificando possíveis impactos do manejo tradicional nos atributos físico-químicos do solo. Espera-se que os dados gerados contribuam para o desenvolvimento de estratégias de manejo mais sustentáveis, além de subsidiar ações voltadas ao fortalecimento da agricultura familiar e à valorização dos saberes tradicionais em comunidades quilombolas.